Por Joaquim Haickel
Heróis e mártires nascem e morrem de maneiras muito semelhantes. Não surgem apenas por suas próprias virtudes, tampouco são produzidos pela vontade artificial de quem pretende ocupar um lugar na História. Eles aparecem quando a sociedade, cansada de abusos, necessita encontrar em alguém a coragem que já não reconhece em suas instituições.
O herói nasce no instante em que uma pessoa se encaixa perfeitamente no desenho das necessidades de seu tempo. Quando a mentira se torna regra, ele representa a verdade. Quando a covardia se espalha, ele demonstra coragem. Quando as leis são torcidas para servir aos poderosos, ele recorda que a Justiça não pertence aos homens que a administram, mas aos princípios que deveriam orientá-la. Sua força não está necessariamente naquilo que pode fazer, mas naquilo que se recusa a aceitar.
Em períodos de corrupção moral e desvirtuação institucional, um gesto de independência pode valer mais do que centenas de discursos. Uma palavra serena, pronunciada contra a corrente, torna-se abrigo para os que se sentiam abandonados. Um voto fundamentado na lei pode devolver alguma esperança a milhões de pessoas que já não acreditavam encontrar, dentro das próprias instituições, alguém disposto a reconhecer seus sofrimentos e a enfrentar as conveniências do poder.
É assim que nasce um símbolo: não porque seja infalível, mas porque tem a coragem de permanecer de pé quando tantos preferem se ajoelhar. Ele dá segurança e respostas às pessoas não por prometer milagres, mas por demonstrar que ainda é possível defender princípios morais, éticos e constitucionais sem pedir licença aos interesses dominantes.
A morte do herói, entretanto, costuma ser mais fácil de produzir. Quando sua existência começa a incomodar, os beneficiários da desordem procuram eliminá-lo. Nem sempre fisicamente. Nas sociedades modernas, é possível matar alguém funcionalmente: isolando-o, ridicularizando-o, desmoralizando-o, esvaziando sua autoridade ou transformando sua virtude em suspeita.
Primeiro tentam desacreditar suas palavras. Depois questionam suas intenções. Em seguida, apresentam sua independência como radicalismo, sua coerência como obstinação e sua fidelidade à Constituição como ameaça às instituições. Não podendo responder aos seus argumentos, procuram silenciar quem os proferem. Não conseguindo destruir a verdade, dedicam-se a destruir aquele que teve a coragem de dizê-la.
Esse é o paradoxo dos heróis e dos mártires: nascem porque respondem aos anseios do povo e são condenados justamente porque não deixam esses anseios adormecer. Tornam-se perigosos para aqueles que dependem do medo, do silêncio e da resignação coletiva.
Contudo, quem tenta eliminar um símbolo quase sempre comete um erro. Um homem pode ser impedido de agir, mas o exemplo que ofereceu já não lhe pertence. Uma voz pode ser abafada dentro de uma instituição, mas continuará ressoando na consciência daqueles que a ouviram.
Talvez ainda existam, no coração das instituições, pessoas dispostas a servir à Justiça em vez de se servir dela. Se houver ao menos uma, haverá esperança. E enquanto essa esperança permanecer viva, nenhum herói terá sido completamente derrotado e nenhum mártir terá morrido em vão.
