A Operação Tântalo foi o tema central da entrevista concedida pelo promotor de Justiça Fernando Berniz, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO), ao programaPonto Final na Rádio Mirante News FM, nesta terça-feira (30). Durante a conversa, o promotor explicou como as investigações revelaram fraudes em licitações, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro no município de Turilândia.
A Operação Tântalo teve início a partir da análise de relatórios de inteligência financeira e do cruzamento de dados sobre o consumo de combustível no município. O promotor explicou que chamou atenção o volume adquirido em relação à frota existente.
“No ano de 2022, tinha apenas nove carros para esse volume de combustível”, o que motivou o aprofundamento das investigações e a constatação de que o combustível sequer era entregue.
Ao detalhar o avanço das apurações, Fernando Berniz afirmou que o esquema ia além de uma única empresa e envolvia gastos pessoais custeados com dinheiro público.
“A empresa participava da licitação, ganhava, o dinheiro da prefeitura era pago para a empresa e a empresa utilizava para custear as despesas pessoais do chefe do executivo, da primeira-dama, da ex-vice-prefeita e para pagar débitos de campanha eleitoral”, segundo ele o esquema permaneceu ativo mesmo após a primeira fase da operação.
Diante da prisão do prefeito Paulo Curió, da vice-prefeita Tânia Mendes e todos os vereadores de Turilândia, está sendo analisado pelo Procurador-Geral de Justiça do Ministério Público do Maranhão, Danilo de Castro, a possibilidade de um interventor para responder pelo Município.
Clique aqui e veja a entrevista na íntegra do promotor Fernando Berniz.

TURILÂNDIA: A FARSA DA “NÃO-INTERVENÇÃO” E O JOGO SUJO DA POLÍTICA MARANHEN
Enquanto R$ 56 milhões sumiram e um prefeito interino governa de tornozeleira, a “prudência” do Estado esconde uma manobra para proteger a família do governador e uma pré-candidatura.
Turilândia virou um espelho grotesco da política maranhense, onde a corrupção descarada se encontra com a conveniência eleitoral. O que está acontecendo no município não é apenas um escândalo de desvio de R$ 56 milhões da Saúde e Assistência Social; é a exposição de uma farsa orquestrada para proteger interesses políticos de alto escalão, em detrimento da população.
A narrativa oficial tenta nos convencer de que a não-intervenção estadual é um ato de “prudência jurídica”. O Ministério Público e o Tribunal de Justiça do Maranhão, embora reconheçam a existência de uma organização criminosa e mantenham o prefeito interino em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, afirmam que o esquema foi “asfixiado” e que há uma “normalidade administrativa” sob monitoramento.
Mas essa “normalidade” é uma piada de mau gosto.
Como pode uma prefeitura, com seu chefe interino governando de casa, sob vigilância judicial, e com todos os contratos suspeitos suspensos, ser considerada “normal”? Isso não é normalidade; é um caos controlado judicialmente, que paralisa a gestão e impede que Turilândia se reerga de um rombo de R$ 56 milhões. A população, que deveria ter acesso a hospitais, medicamentos e programas sociais, é a verdadeira vítima dessa paralisia.
A Verdade Inconveniente: O Elo Político que Explica a Inação
A chave para desvendar essa farsa não está nos autos do processo, mas nas entranhas da política. O prefeito afastado, Paulo Curió, pivô do escândalo de corrupção, declarou apoio político ao sobrinho do governador, que é pré-candidato nas próximas eleições.
Eis a peça que faltava no quebra-cabeça.
A “prudência” do governador em não intervir em Turilândia, ao contrário de sua postura de “intervenção branca” em outros municípios com obras e serviços para fortalecer sua base, não é jurídica. É puramente política.
• Proteger a Imagem: Intervir formalmente significaria ligar diretamente o nome da família do governador e de seu pré-candidato a um escândalo de corrupção de R$ 56 milhões. Seria um tiro no pé eleitoral.
• Manter a Base: Desmantelar completamente o grupo político de Curió através de uma intervenção formal seria um ato de deslealdade com um aliado (ainda que problemático), desestabilizando uma base de apoio para 2026.
• Controle Silencioso: Manter a prefeitura sob monitoramento judicial, com o prefeito interino “na coleira”, permite ao governo estadual ter um controle indireto da situação, sem assumir o ônus político e administrativo de uma intervenção formal.
A Farsa da “Normalidade” e o Custo para Turilândia
Enquanto o jogo político é jogado nos bastidores, a população de Turilândia é quem paga a conta. A “não-intervenção” não é um ato de justiça, mas uma manobra para blindar interesses eleitorais, deixando o município à deriva, com uma administração capenga e a sombra da corrupção pairando sobre tudo.
É hora de questionar: até quando a conveniência política do governo estadual e de seus aliados será mais importante do que a moralidade pública e o direito de um município a uma gestão íntegra e funcional? A “prudência” do Estado, nesse caso, cheira a cumplicidade e a um pacto silencioso para manter o poder, custe o que custar à população.
Turilândia exige mais do que monitoramento judicial; exige uma administração que funcione, sem amarras políticas e sem a sombra da corrupção. Exige que a farsa seja desmascarada e que os interesses da população prevaleçam sobre os jogos de poder.